Os últimos anos têm sido incrivelmente bons para a dupla electro-indie Lucy and the Popsonics. E 2009, ao que tudo indica, não será exceção. Depois de ver seu primeiro disco A Fábula (ou a farsa?) de dois eletropandas, lançado em 2007, ganhar notoriedade a ponto de se embarcar em uma turnê internacional, passando por cidades como Nova York, Boston, Berlin e Lisboa, em 2008, a banda agora se prepara para re-lançar seu álbum de estréia em versão européia, com shows em Paris, em fevereiro e abril (quando irão tocar no festival Les Femmes s'em melent). Também prometem para 2009 um compacto europeu, com uma versão em inglês do hit Eu quero ser seu tamagochi, além de um EP nacional com gravações de shows, covers, e remixes. E isso é só o começo.Abaixo, Fernanda Popsonic, a metade feminina da dupla, responde algumas perguntas sobre estas novidades e algumas polêmicas. Banana Mecânica: Então, para começar, queria que você falasse um pouco sobre estes shows que vocês pretendem fazer em Paris. Pode se considerar como o começo de uma nova turnê internacional grande, como a que vocês fizeram ano passado?Fernanda Popsonic: Na verdade, eles pediram para a gente morar lá por uns 6 meses com casa e van para começar, mas como nós trabalhamos e também não somos loucos de largar tudo simplesmente assim dissemos que não podíamos. Vai ser algo pontual mesmo. Estou no meu primeiro ano de trabalho como empregada em uma empresa e não posso tirar muitas folgas. Antes, eu fazia freelas e podia ficar muito tempo fora. O Pil [metade masculina da banda] até poderia passar 60 dias fora este ano, mas eu não. Ano passado foi ele. Ele só tinha 40 dias de folga. Antes também não tínhamos bookers, só no Brasil. Fazíamos tudo sozinhos. Agora temos, mas infelizmente não podemos aproveitar isso ao máximo.Muita gente acha que somos loucos. Doentes mentais são os outros. Não vamos largar a boa vida que conquistamos e herdamos aqui em Brasília por qualquer aventura maluca no exterior e até mesmo por São Paulo, e ficar fumando maconha o dia todo. Isso é coisa de retardado ou loser, gente! Podemos até fazer umas loucurinhas como a gente faz às vezes, mas não de ir embora como as bandas normalmente fazem em busca de viver de música a qualquer custo em um mercado disputadíssimo na Europa e nos EUA ou mesmo em um ínfimo no Brasil, onde você pode ser descartado por qualquer coisa. Largaria sim, se eu tivesse uma certa garantia. E sonhamos, sim, com a possibilidade das coisas darem certo, mas preferimos manter nossos pés no chão e fazer algo que achamos legal e bom do fundo dos nossos corações. Não queremos chegar aos 40 anos e pensar no tempo que perdemos por um sonho imbecil de gente ingênua. Queremos, sim, chegar aos 40 anos com muitas aventuras nas costas sem a vida comprometida com coisas que deram errado.E sobre esta experiência de vocês com shows nos EUA, Europa... como foi a recepção do público, houve algum estranhamento por vocês cantarem em português ou a galera se identificou rápido com o estilo das músicas?Nenhum estranhamento com a língua. Fomos bem recebidos em todos os sentidos e em todos os lugares, mesmo que dois daqueles shows não tenham sido dos mais legais. Em todos os EUA, as pessoas nos tratavam como novidade, uma coisa nunca ouvida antes, mas em Boston as pessoas esperavam que a gente tocasse funk, que a gente fosse tipo um Bonde do Rolê ou uma coisa da favela mesmo e ficaram muito espantados com dois branquelos subindo com guitarras, fazendo um som pesado e pior, se dizendo ser do Brasil! Acho que as pessoas pensavam: Como assim, gente? No interior, as pessoas perguntavam que língua cantávamos e de onde éramos. Elas achavam que por aqui só se poderia sair coisa boa se fosse bossa, samba ou funk. Tinha gente que tinha medo de se aproximar e tentar conversar com a gente, porque achava que não sabíamos falar outras línguas. Porém, nos grandes centros, a coisa é diferente. As pessoas têm mais contato com estrangeiros e, principalmente, com brasileiros. Uma vez, perguntei por que as pessoas não estavam se importando com o fato de cantarmos em português e me responderam que mesmo em inglês ninguém se importava com o que seria dito de qualquer forma e em português ainda ficava mais bonito.Na Europa, a gente passou apenas uma semana, que foi sensacional. Já tínhamos ido a Portugal e, desta vez, as pessoas nos conheciam e cantavam as músicas. Foi surpreendente! Às vezes, tocamos em Brasília e ainda tem gente que não nos conhece, por exemplo. Na França, fizemos o melhor show da nossa vida. A gente até pensou em acabar com a banda ou se mudar definitivamente pra lá depois disso, mas, aí, a vontade de continuar e a racionalidade de que não se pode largar tudo aqui por enquanto pesou haha. E como surgiram os convites pra vocês tocarem nestes lugares? A gente tem um booker europeu, que marcou os shows.O disco de vocês vai ser re-lançado na Europa, assim como um compacto com a versão em inglês de 'Eu quero ser seu tamagochi'. Vocês parecem estar realmente interessados em se afirmar na cena internacional. Você acha que é mais fácil conseguir espaço neste mercado cantando em inglês? Pode-se esperar para o segundo álbum uma tendência a cantar em português, inglês, ou os dois?A idéia era cantar tamagochi em francês, mas não ficou legal. Optamos pelo inglês porque ficaria mais fácil mesmo. A gente quer se divertir lá como fazemos aqui e sabemos que lá isso é mais que garantido! As pessoas são mais receptivas e têm menos preconceitos, apesar de que também não queremos deixar o Brasil. Mas lá nos tratam com muito mais carinho e quem não gosta de ser bem tratado? Estamos falando isso sem estrelismo. Às vezes, você se propõe a fazer um show e os produtores te tratam como qualquer coisa, do tipo que se não fosse você seria qualquer outra pessoa, e a sociedade (público, família, governo) te trata como marginal por fazer rock e não algo cult como MPB regravado, jazz ou blues meia-boca, punk e rock de velho ou qualquer coisa do tipo e também porque você não tem sangue azul. A música no Brasil é coronelismo ou marginalismo. Se você é uma banda de Brasília, do plano piloto mais especificamente, se você não regrava merda nacional dos anos 60, se você não mistura rock com qualquer porcaria nacional e ainda por cima tira sarro de toda essa merda, boa sorte! Então, foda-se! Novamente: quero que a bossa regravada, o rock de véi, a mistura de rock com porcarias nacionais vão tudo tomar no cú! Não escuto, nunca escutei e não vou escutar. Recuso-me! Não vivo de música e fico imaginando o quanto estaria fodida se precisasse dela para comer. Faço o que curto sem pedir muita coisa em troca, além da diversão. Isso para mim é hobby, first of all.Fernanda Gamavestidaparamatar@gmail.com
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