What a Wonderful World II [sem acentos, nao repare...] A introducao da reportagem de capa da revista Offbeat de agosto eh tao boa que eu vou soh traduzi-la para comecar esse texto aqui: "O jazz viajou pelos caminhos da tecnologia e da estetica do seculo XX ateh o ponto de ter, hoje, milhoes de caras pelo mundo. Em Nova Orleans, Louis Armstrong eh a cara do jazz." Nao foi ele quem inventou o jazz nos clubes onde negros se reuniam para dancar, beber, e se apaixonar. Mas desse comeco, quando os brancos jah davam os primeiros passos de swing nas pistas de danca, foi ele que deu o salto para se tornar o primeiro solista de destaque. Sem forcacao, foi o primeiro popstar da historia, afinal o jazz era a musica pop da primeira metade do seculo. Nessa condicao, passou tambem a cantar. E a atuar. Negro, maconheiro, transmissor de emocoes com uma facilidade e um alcance sem igual. Os olhos, o sorriso, a voz. Tudo era instrumento para sensibilizar e cativar. Carisma, eh assim que alguns chamam. Satchmo foi um embaixador do bem viver. Cantou a comida da Louisiana, as mulheres, os cigarrinhos, e o que mais bem entendeu. Tinha um descaso quase provocador ao que especializados e patrulheiros politicos pensavam. A esquerda e a direita, defensores do bom gosto, todos falaram mal dele. Jah velho e limitado, gravou a musica que demoraria vinte anos para virar a marca dele nos EUA e no mundo. What a Wonderful World foi lancada em 1967, fez algum barulho na Inglaterra, mas soh no fim da decada de 80 foi parar na lista de mais executadas do pais de Pops - a proposito, outro dos apelidos com que eh carinhosamente tratado. E foi por causa da trilha de um filme que tenta achar um lado positivo em um momento de guerra, Bom Dia Vietna. Hoje, dois anos depois do Katrina, Nova Orleans tenta achar o que ha de bom em um momento de tragedia. What a Wonderful World eh a trilha da cidade. Kermit Ruffins eh claramente o atual embaixador do bem viver. E a comparacao nao eh soh essa. Ele eh tambem trompetista, negro, maconheiro, e entre a disciplina da tecnica e a irresponsabilidade do improviso, gargalha e foge do que eh esperado. Para aproximar um pouco a figura folclorica da gente, no Brasil, Kermit fez um showzasso no Satchmo Fest a la Tim Maia. Cumprimentou, do palco, a todos que reconheceu na plateia. Virou-se de costas para brincar com quem estava atras nos bastidores (a Rebirth BBand inteira, Trombone Shorty, a familia). Bebeu cerveja. E nao deixou de comandar a celebracao. Soh nao reclamou do som, porque nao rolava essa possibilidade. Mas recebeu a pequena Gabrielle, do show da Soryville no dia anterior, e ela por pouco nao ficou em cima do palco para sempre. Em seguida, outra menininha que estracalhou What a Wonderful World para desespero da banda que acompanha Kermit, a Barbecue Swingers. E ainda a filha dele, de 15 anos, "embora nao pareca, sabe? Ela eh baixa para a idade." Bem, tambem teve um tal de Silent Giant, e ainda outro trompetista para puxar (adivinhem?) What a Wonderful World. Claro, deu tempo de ouvir If You Want Me To Stay (Familu Affair), You Don't know What It Means To Miss New Orleans, Do Watcha Wanna, When The Saints Come Marchin'In, Skokiaan (a de Pops que Kermit mais gosta) e ... What a Wonderful World. Quando chamou Trombone Shorty para o tradicional encerramento do festival, o moleque nao foi encontrado. Uma pena. Pensando bem, um detalhe que nao tirou o brilho de um mundo ali, naqueles curtos instantes..., mmm, ...um mundo com um que de maravilhoso. E jah vinha sendo maravilhoso, antes do encerramento. Peguei os ultimos tres ou quatro minutos do hype de Trombone Shorty, cujo nome eh Troy Andrews. Como tinha uma cerveja de sapo na minha mao, voces queiram entender que essa foto eu nao fiz. Mas imaginem uma praca lotada, euforica, e um palco com tres senhoras vestidas de antigamente, e um menino magrinho com oculos escuros Dolce Gabana descendo para o meio do publico para comandar uma fila de musicos em uma pequena parada improvisada. Os aplausos foram intensos, pode acreditar. E foi essa a apoteose que antecedeu a entrada de Kermit em cena. O show inteiro de Shorty, eu perdi por um bom motivo: Rebirth Brass Band - a minha maior curiosidade na cidade. E os caras sao muito bons. Mesmo dividindo publico com Shorty, levaram bastante gente para o fundo do US Old Mint. O animo foi abaixo do da apresentacao da Soul Rebels, na vespera, porem nao da para nao perceber que o folego da Rebirth eh maior. Sao dois saxes tenor, dois trombones, dois trompetes, uma tuba e dois que se dividem em caixa, pratos e bumbo. O principal vocalista eh Derrick KABUCY Shezbie, que toca segurando a bochecha direita. Mas todos cantam. Diante de 25 anos de historia, sao os defensores incansaveis do funk, e a referencia maior disso que sao as brass bands de Nova Orleans. De volta ao palco contemporaneo, Edward Anderson and the Bleu Orleans (Bleu em frances, nao Blue em ingles) fizeram um show de solos estupendos. O saxofonista do Alabama, Nelson Mandellia (deve se escrever assim), era um monstro nas improvisacoes. Em uma critica direta e sem sutileza a um jornalista que o tinha entrevistado, Anderson anunciou que tocaria a classica e boba Bye Bye Blackbird. Apresentou um numero incrivel, com viradas harmonicas e momentos em que ficava dificil reconhecer a musica, para em seguida voltar o tema e resolver a tensao. Experimental, sim, da melhor qualidade. Quanto a provocacao, a historia eh que Anderson assumiu ha pouco a diretoria do curso de musica da Universidade Dillard, e em entrevista publicada na Offbeat de agosto, disse que o turismo afasta o jazz de Nova Orleans de um nivel superior, porque os musicos ficariam satisfeitos em tocar as mesmas What a Wonderful World e Bye Bye Blackbird para garantir a gorjeta. A resposta nao foi bem recebida, e justamente ou nao, Anderson disse que nao disse aquilo. Botou a culpa no reporter. O publico ganhou, no minimo, uma excelente versao de uma velha cancao. Abrindo o dia, ou pelo menos o meu dia, o show de John "Kid" Simons passou batido. Jazz lento, sem brilhos maiores.[Prometo que ateh a semana que vem entro com as fotos. Me da essa chance, vai...]
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