Um filme no close pro fim foto: Mauro Nascimento/G1 A última temporada do Los Hermanos antes de entrar no tal ?recesso por tempo indeterminado? foi marcada pela alegria e complacência dos fãs, mais do que pela tristeza, revolta ou sentimento de perda. Parece que passada a ressaca que o comunicado oficial causou, os admiradores do grupo passaram a ?confiar? nas reiteradas afirmações de que esse momento é apenas um ?até logo? e não um ?adeus? definitivo. Foram três apresentações que arrastaram cerca de 10 mil pessoas para a Fundição, se considerarmos que a capacidade do local é de 5 mil e que muita gente não se contentou em ver um dia apenas. foto: Louise PalmaA mini-temporada foi uma grande celebração dos oito anos em que a banda passeou por grandes palcos. Afora o numeral desenhado na tampa do bumbo de Rodrigo Barba, não havia nenhuma citação à turnê do disco ?4?. Foram shows especiais, com repertórios diferentes a cada dia, e que tiveram como cenário apenas a cortina atrás dos músicos. Camelo e Amarante comandaram a retrospectiva que recuperou momentos tão longínquos quanto a presença dos terninhos no figurino, as canções executadas sem a presença dos músicos de apoio e ainda preciosidades como ?Onze dias?, ?Azedume?, ?Descoberta?, ?Tenha dó? e ?Lágrimas Sofridas?. Esta última estava tão distante no inconsciente do público que Camelo ficou algum tempo sozinho, na penumbra, conduzindo os acordes em contratempo até que a platéia se ligasse e entendesse do que se tratava. Ao mesmo tempo em que a visita ao repertório do primeiro disco incendiou os fãs, também serviu pra deixar mais claro porque a banda tinha tanta relutância em apresentá-lo recentemente. De fato, as composições e os arranjos do álbum lançado em 1999 estão muito distantes do resto. Das 55 músicas gravadas, 35 foram incluídas no set-list alternadamente. O grupo se esforçou pra manter o clima de festa e o que se viu foi uma preponderância das músicas com andamentos mais rápidos às baladas. foto: Bruno Maia Isso gerou efeito direto na platéia. Nada de sentimentalismos. O máximo que se ouviu foi um grito, como os de estádios de futebol, no fim da terceira noite: ?Ahhh, Los Hermanos vai voltar... Los Hermanos vai voltar...?. Estádio de futebol. Tá aí uma boa comparação para o que se tornou a Fundição (e todos os outros palcos por onde o grupo passou em mais de 500 apresentações). A torcida era uma só, empurrando o time. Amigos marcavam de se encontrar pra torcer juntos. Outros, mais solitários, iam sozinhos, mas rapidamente se abraçavam com quem estava do lado para cantar junto. O nome da banda parece sempre ter servido para definir seus fãs. A irmandade e a cumplicidade com que todos celebraram o ritual hermânico é comumente comparada à da Legião Urbana.foto: Bruno Maia foto: Mauro Nascimento/G1 Tal qual muita gente ? inclusive este que digita estas linhas ? se ressente por não ter visto Renato Russo no palco, a saudade do que não se viu também há de se abater sobre uma nova geração que descobre, aos poucos, a obra dos Hermanos. Apesar dos fãs de sempre, era possível observar na Fundição muita gente que nunca ouviu uma fita-demo, nem tampouco tinha idade para ir a um show em 1999. A renovação do público já é visível. A consistência da obra dá a certeza de que o passar do tempo pode ser apenas um detalhe para a arte.***********Quando o assunto é Los Hermanos, falar em ?intenção? é sempre meio caminho pra ser desmentido daqui a dois segundos. Mas o que se observou nesses shows foram que, além de se confraternizar e encerrar um ciclo junto de seu público, o grupo quis (?) mostrar que não havia brigas, nem desentendimentos graves, por trás da decisão tomada. Durante todo o tempo, Barba, Camelo e Amarante trocavam sorrisos cúmplices. Lógico que quando o assunto é sorriso, você pode excluir a sobriedade de Bruno Medina, sempre. Mas ainda assim, os quatro aparentavam estar com as pendengas internas bem solucionadas e tranqüilos sobre a decisão tomada.E é isso. O último disco da banda já tinha avisado, a quem quisesse ouvir, qual seria o próximo momento deles. ?E agora o amanhã, cadê??, perguntava Camelo em ?Dois barcos?, música cujo título era a melhor metáfora para definir o que o grupo vivia artisticamente. Amarante respondia que ?se a gente já não sabe mais rir um do outro, meu bem, então o que resta é chorar. E talvez, se tem que durar, ver renascido o amor, bento de lágrimas?. É esperar pra ver. Só resta a certeza de que foi bonito pacas enquanto durou.***********O som da Fundição é aquela coisa trágica de sempre. Vá lá, a galera cantava tudo como se os decibéis alcançados fossem nos salvar, mas em teoria ? pelo menos em teoria ? um sistema de PA deve servir pra fazer os músicos serem ouvidos. É evidente que falar de aspectos técnicos diante da comoção e da efusão de sentimentos que podia se observar em qualquer ponto da casa, em qualquer um dos três dias, beira a implicância. Por isso, não vamos nos alongar.
Comentar   Avisar um amigo   Notícia ruim

Comentários Quem votou Outros Links