Se fosse em outros tempos, um artista novo chegar a fazer uma apresentação no histórico palco do Canecão seria visto como um marco na carreira, um divisor de águas. O que dizer então se as filas na bilheteria fossem imensas, se a casa lotasse... Consagração. Manchetes. Nesses outros tempos, só de o Caetano cantar uma música do Barão Vermelho em uma noite no Canecão, no dia seguinte todos queriam saber quem era Cazuza. Em outros tempos, Elymar Santos surgiu para o mercado depois de alugar a casa com o próprio dinheiro e fazer uma apresentação de sucesso. Outros tempos.Na noite de terça-feira, Casuarina e Mart'nália repetiram o feito de estrear bonito. Muitos apostavam em uma casa meia-bomba, afinal o Casuarina toca toda hora pela cidade e a Mart?nália não seria um headline de grande expressão pra bancar um Canecão. Ainda mais numa terça-feira. Burros n?água. E nada desse papo de que era só convidado vip. Do lado de fora, a fila que saía pela bilheteria já anunciava o que se veria lá dentro. Dessa vez, dá até pra (tentar) perdoar o atraso de 2h05 (!!!) entre o horário previsto e o início do primeiro show, já que o tamanho do público pode ter surpreendido até aos produtores.O Casuarina abriu os trabalhos às 21h05, numa situação bem diferente do que se viu em dezembro na Baronneti. Com um palco profissa, luz bacana e som bom, eles mostraram que não há mais razões para se tratar a cena de samba carioca como algo ?alternativo?. A incorporação de um trabalho autoral ? que promete nortear o próximo CD ? reforça a idéia de que o grupo pode ser mais do que apenas um resgate cultural, mas também uma renovação criativa que muito bem fará ao gênero. Os músicos começam a se sentir mais a vontade pra ousar, tanto que nesse show já se permitiram, alternadamente, se levantar das cadeiras e chegar mais perto do público. João Cavalcanti está a cada dia mais seguro na função de cantor. Mais do que uma voz privilegiada, ele é um dedicado cantor, com todos os méritos que esse adjetivo traz. João não se arrisca com a voz em lugares que ele não tenha convicção de que possa chegar, mas é notório que a cada show ele avança uma casa, atinge novas possibilidades e se torna melhor.A banda nunca optou por nenhuma vertente específica. Eles vão desde os sambas-canção até o sambas-enredo com naturalidade. Mas por alguma razão são os que trazem arranjos mais ?pra frente? que caem melhor na interpretação deles. Veja que não estou falando de ?sambas alegres?ou ?sambas tristes?, até porque não há como dizer que a versão de ?Pranto de poeta? ? que definitivamente não é ?alegre? ? não seja linda. Ou ainda, o mesmo pode ser dito sobre ?Canto de Ossanha?.Mesmo a pequena parte do público que não conhecia o Casuarina (especialmente os mais velhos) abraçou a banda. Nesse sentido, o resgate de clássicos ajuda a estreitar a relação dos artistas com a platéia e torna a presença do repertório inédito mais palatável. Do que eles estão guardando para o próximo disco, ?Inconstante? já se destaca.Mart?nália entrou em cena acompanhada de sua excelente banda. Destaque especial para o jovem quarteto de percussionistas, todos criados na quadra da Vila Isabel. No início da carreira solo, havia muita desconfiança em cima dela. Além de ser filha de Martinho da Vila, todo mundo era ?padrinho? dela. O que inicialmente parecia um ?nepotismo? vem se mostrando um acerto da mpbzada. A apresentação é calcada no mesmo repertório que se pode conferir no DVD e CD ?Ao vivo em Berlim?. Naquela ocasião, ela abriu um show de Chico Buarque e foi o próprio Chico quem escolheu tocar com ela. A linda seqüência "Pra Mart'nália" / "Nas águas de Amaralina" abre o show, como uma espécie de mantra, de oração, de pedido de benção que sempre é atendido. O repertório vai correndo por Caetano Veloso, Arlindo Cruz, Djavan, Vinícius de Moraes, Adoniran, Luiz Melodia... Coisa fina."Cabide", a ?música de trabalho?, é, por incrível que pareça, de Ana Carolina. O ?por incrível que pareça? fica por conta da música ser ótima. Um samba lésbico que reina num universo historicamente machista, que tem uma divisão rítmica contagiante e que pega qualquer um pelo pé. Do ouvido ou do samba. Naturalmente foi a música mais cantada pela platéia, ainda que a grande maioria do repertório tenha sido fortemente acompanhada. Sem querer estabelecer comparações, mas nessa canção, por vezes, o timbre da voz de Mart?nália lembra o de Elza Soares.No meio da apresentação, a cantora teve a participação especial do angolano Paulo Flores, que está no Rio produzindo um disco no estúdio de Chico Neves, com a produção de Jacques Morelembaum. Juntos cantaram duas músicas, entre elas ?Zumbi?, de Jorge Ben, numa versão muito curiosa. A cadência mais lenta apoiada no baixo poderia ter virado um dub se jogassem uns efeitos por cima."Sem Compromisso", de Geraldo Pereira (e Nélson Trigueiro), é um samba que se perpetuou, desde os anos 40, pelas freqüentes interpretações de João Gilberto. De três anos pra cá, ela foi redescoberta por toda uma geração. Desde os desconhecidos do grupo Carnevalle, com sua pretensiosa versão ska, até a Orquestra Imperial, passando por muitos outros. Nesse meio tempo, Chico Buarque também resolveu cantá-la em seus shows. Foi justamente no bis da tal apresentação em Berlim, a primeira dessa nova turnê buarquiana, que ele convidou Mart?nália para dividir os vocais. Como foi o show dela que virou DVD ? o dele está gravado, arquivado e pode ir pro mercado em algum momento ?, o diretor Roberto Oliveira optou por usar o crédito ao contrário: ?Mart?nália com a participação especial de Chico Buarque?. Daí, a música entrou também no repertório da carioca e ficou bem colocada, já na reta final da apresentação.No fim, a cantora chamou os casuarinas pra voltarem ao palco e encerrarem a noite juntos. Mart?nália e sua banda se sentem especialmente à vontade quando o roteiro cai e a jam session vira lei. Coisa de quem veio das rodas de samba. ?Na intimidade, meu preto?, o samba malandro de Nei Lopes (já gravado pelo Casuarina) abriu a bagunça, que seguiu pela homenagem à Vila Isabel, bairro e escola. ?Valeu Zumbi (Quizomba ? Festa da Raça)?, que embalou a vitória da G.R.E.S em 1988 acelera, atravessa, e dá a deixa pra pesada batucada final ser comandada por Cacique Cassiano, filho de Mug, mestre de bateria da Vila O ritual de saída do palco demora tanto que a galera, cansada, nem se arrisca a pedir bis. Saem todos ovacionados, mas já passa de meia-noite e a rapaziada tem que bater ponto cedo.Uma noite de estréia no Canecão como poucos artistas conseguem ter, ainda mais nos dias de hoje, ainda mais numa terça-feira. Palmas pras duas bandas, palmas para os produtores, palmas para o que resta de esperança na renovação da cena carioca. A cumplicidade com que o público se aproximou dos artistas mostra que a cidade está viva e a história não parou. Talvez só nos demos conta de algumas coisas quando o tempo trouxer o distanciamento. Afinal, a nostalgia é amiga do ?gosto popular? e é mais fácil lembrar com carinho dos ?velhos tempos? do que olhar pra frente.**********************Como a imprensa é um retrato fiel da sociedade em que ela está inserida, a nossa vai na mesma trilha. Não consegui perceber a presença de nenhum dos ?grandes? cadernos de cultura da cidade. Enquanto isso, o Paulo Coelho anuncia que está apaixonado pela internet. O Stallone confessa que importou hormônios. O musical de ?O senhor dos Anéis?chega ao West End. Atores posam pra fotos de divulgação e são expostos nas bancas como traficantes. E por aí as linhas da cultura seguem. Há ainda as que correm pelo Prêmio Tim, um dos poucos que tenta realmente fazer jus à real produção cultural do país, à margem das chamadas impressas ou digitadas.*************************E assim, a noite de ontem passa ao largo, em branco, pra quem não esteve lá. Mas algo aconteceu e é bom que se saiba.*************************Ainda não recebi as fotos do show. Assim que chegarem, eu subo.
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