Resenha de CD / DVDTítulo: Acústico MTV Paulinho da ViolaArtista: Paulinho da ViolaGravadora: Sony BMGCotação: * * * *Acústica pela própria natureza, a obra de Paulinho da Viola não sofre mutação substancial na releitura proposta pela MTV. Ao contrário, ela ressurge com a usual nobreza em CD e DVD da série Acústico MTV, gravados em 24 e 25 de julho, nos estúdios Quanta e Motion, em São Paulo (SP), em dois shows restritos a convidados do artista, da emissora e da gravadora Sony BMG, que começa a empresariar Paulinho através da recém-criada agência Day 1 - cuja razão social passa a englobar a própria companhia multinacional de discos que lhe deu origem.Sem lançar CD de inéditas desde 1996, Paulinho da Viola abraçou o projeto acústico em sintonia com os novos tempos do mercado da música. Contudo, fez a gravação no tempo todo próprio que determina o ritmo de sua vida e obra. Através de 24 músicas (15 no CD), ele reitera fidelidade ao samba e ao choro de forma mais tradicional. Mesmo as cordas arranjadas por Cristóvão Bastos - dispostas de forma especialmente inventivas na releitura sublime de Eu Canto Samba (1989) - não são aditivos exatamente novos em obra urdida desde os tempos iniciais com cordas arranjadas pelo célebre maestro Lindolfo Gaya (1921-1987), mestre do ofício.Alternando-se no cavaquinho e no violão, Paulinho desfia roteiro que fortalece os cânones de uma obra que jamais se deixou fisgar pelas iscas do mundo pop, do qual a MTV - que ora veicula a voz ainda límpida do artista - sempre foi representante. Se a devoção o choro é reafirmada em Coração Imprudente (1972), a fé no samba mais puro é reafirmada com a lapidação de jóias do alto quilate de Coração Leviano (1977), Onde a Dor Não Tem Razão (1981), Para um Amor no Recife (1971), Pecado Capital (1975), Argumento (1975) e Foi um Rio que Passou em Minha Vida (1970). A pureza é destilada com a fina melancolia que permeia quase toda a obra de Paulinho da Viola e que dá o tom neste acústico que conserva, em maior ou menor escala, a forma original dos sambas. Somente em Tudo se Transformou (1970) é perceptível uma alteração mais radical na estrutura rítmica. O samba, dos mais belos e dos menos conhecidos do compositor, reaparece em andamento muito mais lento. É - talvez por isso mesmo - grande momento do CD e DVD.Para os fãs de primeira hora, o teor de novidade está concentrado nas três inéditas e em Ainda Mais, samba que o artista apresenta à platéia como "relativamente novo". Na realidade, foi gravado pelo parceiro Eduardo Gudin em 1998, no disco Pra Tirar o Chapéu. Contudo, permanecia inédito na voz de Paulinho. Dos três sambas realmente novos, Talismã tem o status de inaugurar a parceria do compositor com Arnaldo Antunes e Marisa Monte, os autores da letra que retrata bem o temperamento abnegado e aparentemente calmo do sambista - talvez mero disfarce para a presumível tensão interna que parece reger a personalidade de Paulinho da Viola. Os outros dois sambas, Bela Manhã e Vai Dizer ao Vento, mantém o rigor estilístico do autor sem que soem especialmente belos (Vai Dizer ao Vento é mais sedutor e se aproxima do melhor do autor).Entre standards e inéditas, o artesão aproveitou a oportunidade para polir sambas que passaram despercebidos em sua discografia - profícua e de regularidade anual de 1968 até 1983. Amor É Assim e Foi Demais vieram do disco Zumbido (de 1979). Só o Tempo - que Paulinho já revisitara na década de 90 em dueto lapidar com Zizi Possi, em CD da série Casa de Samba - foi lançado em disco de menor êxito e exposição comercial, A Toda Hora Rola uma Estória (1982). Tudo apresentado com imagens de rara beleza - captadas pelo diretor Fabrizio Martinelli dentro do padrão MTV.Para completar, o DVD - o primeiro trabalho de Paulinho da Viola concebido originalmente para o formato - traz um making of de 41 minutos que, mais do que triviais cenas de bastidores, revela fatos que ajudam a entender a música e a personalidade do artista. Com direito a breves biografias de ícones do samba e do choro. Se Toquinho ressalta o ritmo todo próprio do colega para contar causos (na seqüência, o filme mostra Paulinho à vontade no ônibus contando histórias para seus músicos), Elton Medeiros revela a pressão que já fez em cima do parceiro para conseguir uma letra para o samba que queria incluir com urgência em seu disco. "Tudo que fiz foi levado pela emoção, tentando fazer um samba como meus ídolos faziam", sintetiza Paulinho da Viola ao fim do documentário, com a habitual elegância e a usual reverência aos mestres do passado. Ciente, talvez, de que a modernidade atemporal de obra - ora revista sob a luz da MTV - repousa sobretudo no apego sincero às tradições do samba e do choro.
Avisar um amigo
Notícia ruim
Comentários